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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Elementar Senso Comum

Como estudante das Ciências Humanas e Sociais a indagações que nós aparecem por meio da realidade a ser fundamentalmente analisada correm com certa velocidade tanto que muitos não conseguem estabelecer pontes entre clássicos e contemporâneos. Mas isso foi apenas uma consideração prévia.
Se o pretendente candidato a profissional sociólogo, antropólogo ou cientista político tiver calma e não praticar a sectarização dos fatos da realidade social é bem mais simples se aproximar do objeto de estudo sem fundar um conflito entre as ideologias determinantes e as concepções científicas. O que estou tentando aqui dizer é que a má interpretação do social e dos dados sociológicos muitas vezes coloca aspirantes das ciências humanas numa posição delicada; e onde a maioria dos aprendizes acabam por premissas científicas ferindo a integridade do sistema social a qual está inserido. Apesar do olhar crítico, um sociólogo, antropólogo ou cientista político não está isento do título de senso comum, e não que isso seja visto de um modo negativo, pois os meios do senso comum não são os elementos da uma ignorância figurada nas ações sociais, vendo que suas implicações tem tantas influências no conjunto da obra do viver social e humano.
O que acontece muitas vezes quando principalmente aspirantes das ciências humanas fazem uma interpretação equivocada dos fatos é a fomentação de conflitos ideológicos entre o social ao qual está inserido e a cientificidade da realidade socialmente construída. É importante que haja um certo desapego das práticas preconceitualizadas por parte desses cientistas, porém não há como estabelecer um plano de fuga ou evasão daquela realidade a qual foi construído como indivíduo.
Senso comum e conhecimento científico estão sempre numa dicotomia ou bifurcação por sua distância considerável e constante aproximação. Senso comum geralmente se baseia nos sentidos, crenças, tradições, e assim é fruto das experiências do cotidiano. Já o conhecimento científico se molda por um raciocínio objetivo, se sua comprovação é dada pelos métodos experimentais. Mas o senso comum não é por assim só um conjunto de ações, é um saber que se adquire através da vida social, de modo que se constitui de modo informal, adquirido de forma espontânea pelo contato, situações e objetos que correspondem a vida social do indivíduo. O senso comum é então um elemento fundamental, pois todas suas implicações orientam os indivíduos o modo de viver cotidianamente suas realidades, seus saberes populares assim então constituem as bases de adaptação do viver social, mas que por vezes pode negativamente implicar um série de opiniões e crenças que podem constituir ações e idéias preconceituosas facilmente transmitidas por gerações e que serão combatidas apenas por implicações científicas.
Com tudo, o aspirante das ciências humanas deve principalmente compreender não apenas o senso comum como dado oposto a realidade ideológica científica a qual está disposto, mas vendo que essa associação existe de modo dependente; a geração de conflitos por má interpretação da crítica social e científica acerca do senso comum pode gerar uma discordância maior das premissas do cientista social com a realidade a qual está inserido.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ostracismo a lei do masculino


Dada a realidade da supremacia do poder masculino, onde o trunfo da jogada está no fato de "ser homem", nossas mulheres buscam demais sua autonomia e independência, mas dispostos sobre um dilema social de Florestan Fernandes, como nos lançarmos a essas exigências das liberdades modernas sem nos desapegar daquilo tradicional?
Ser homem hoje em dia não justifica muita coisa, mas quando algumas de nossas mulheres se prendem a essas concepções para justificar as ações da realidade, há então um retrocesso de todo o pensamento de liberdade e autonomia feminina, onde as mulheres só reafirmam uma tese Beckerana de que: os homens impõem as leis não apenas dos homens, mas definem e determinam as situações e comportamentos também ao feminino. E estando então as mulheres desobedecendo aos parâmetros e mandamentos das leis do masculino sobre o feminino, estarão passíveis a qualquer tipo de ostracismo social.
Não desempenhando o papel de um discurso feminista, mas a principal equivalência da autonomia feminina só funcionará quando aplicarmos nas práticas sociais tudo que defendemos em tese. O "ser homem" hoje justifica realmente a liberdade de quais práticas sociais se não aquelas que já estão por demais obsoletas? Isso porque mulheres hoje já atingiram a autonomia necessária em campos que até pouco tempo eram encarregados aos homens, as campanhas de igualdade de gênero estão se dissipando, e seus níveis estão ganhando cada vez mais discípulos. Porque enquanto mulheres continuarem aceitando passivelmente as possibilidades de expansões sobre a justificativa do "pode, porque ele é homem!" só está assim afirmando a retrograda soberania machista, elevando o ego que violenta a modernidade, as liberdades e os direitos.
Avanço social, avanço da autonomia feminina, só finalmente se concretizará quando os princípios da premissa testosteronica finalmente pararem de ser consideradas e usadas como justificativa para os atentados as liberdades de gênero, aos direitos enfim iguais, sejam nos campos profissionais, pessoais e até no lazer. Onde os seres masculinos podiam ir e vir livremente e os demais eram os considerados intrusos do meio, e passíveis de ostracismo, hoje já se ver uma pequena manifestação de emancipação sobre os principais desfrutes da vida urbana.
Enfim, aos poucos se libertando das concepções machistas e das justificativas de que "ele pode porque ele é homem!" podemos enfim falar e prover da liberdade entre gêneros, da despudorização dos atos, e da esperada justiça social.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Milagre humano

"A diferença decisiva entre as "impossibilidades infinitas", sobre as quais se apoia a vida humana terrestre, e os acontecimentos milagrosos no próprio âmbito das ocupações humanas está naturalmente no fato de que há, aqui, o feitor dos milagres e de que o próprio homem é, de um modo extremamente milagroso e misterioso, manifestante dotado para fazer milagres. Em nossa linguagem comum e bem usual, chamamos a esse dom de agir."

Hannah Arendt trouxe do campo ciêntífico político tudo o que meu ceticismo busca explicar. E só saindo com campo de ações políticas, que é o que Arendt propõe em "Será que a política ainda tem de algum modo um sentido?" é que procuro fortalecer a base da minha religião explicitamente egocêntrica.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A cerveja e o assassinato do feminino

por Berenice Bento¹

Há muitas formas de se assassinar uma mulher: revólveres, facas, espancamentos, cárcere privado, torturas contínuas. Mesmo com um ativismo feminista que tem pautado a violência contra as mulheres como uma das piores mazelas nacionais, a estrutura hierarquizada das relações entre os gêneros resiste, revelando-nos que há múltiplas fontes que alimentam o ódio ao feminino. Como não ficar estarrecida com a reiterada violência contra as mulheres nos comerciais de cerveja? Com raras exceções, a estrutura dos comerciais não muda: a mulher quase desnuda, a cerveja gelada e o homem ávido de sede. As campanhas são direcionadas para o homem, aquele que pode comprar. Alguns exemplos: uma mulher faz uma pequena dissertação sobre a cerveja para uma audiência masculina, incrédula de sua inteligência. Logo o mal-entendido se desfaz: claro, uma mulher não poderia saber tantas coisas se tivesse como mentor um homem; a mulher é engarrafada, transformada em cerveja; um mestre obsceno infantiliza e comete assédio moral contra uma discípula; ela é a BOA. Quem? O quê? A mulher ou a cerveja? Todos os comerciais são de cervejas diferentes e estão sendo exibidas simultaneamente. Nesses comerciais não há metáforas. A mulher não é "como se fosse a cerveja": é a cerveja. Está ali para ser consumida silenciosamente, passivamente, sem esboçar reação, pelo homem. Tão dispensável que pode, inclusive, ser substituída por uma boneca sirigaita de plástico, para o júbilo de jovens rapazes que estão ansiosos pela aventura do verão. Se já criminalizamos alguns discursos porque são violentos, não é possível continuarmos passivamente consumindo discursos misóginos a cada dia, como se o mundo da televisão não estivesse ligado ao mundo real, como se as violências ali transmitidas tivessem fim no click do controle remoto. Embora a matéria-prima para elaboração desses comerciais esteja nas próprias relações sociais, nas performances ali apresentadas há uma potencialização da violência. Não há uma disjunção radical entre violência simbólica e física. Há processos de retroalimentação. A força da lei já determinou que os insultos racistas conferem ao emissor a qualidade de racista. Também caminhamos para a criminalização da homofobia em suas múltiplas manifestações, inclusive dos insultos. Por que, então, devemos continuar repetidas vezes ao longo do dia a escutar "piadas" misóginas, alimentando a crença na superioridade masculina sem uma punição aos agressores? Sabemos da força da palavra para produzir o que nomeia, sabemos que uma piada homofóbica, racista, está amarrada a um conjunto de permissões sociais e culturais que autoriza o piadista a transformar o outro em motivo de seu riso. Agora, é incalculável o estrago que imagens reiteradas de mulheres quase desnudas, que não falam uma frase inteligente, que estão ali para servir a sede masculina, invisibilizadas em duas tragadas, provocam na luta pelo fim da violência contra as mulheres. Da mesma forma que o "piadista" racista e/ou homofóbico acha que tudo não passa de "brincadeira", o marqueteiro misógino supõe que sua "obra-prima" apenas retrata uma verdade aceita por todos, inclusive por mulheres: elas existem para servir aos homens. E como é uma verdade aceita por todos, por que não brincar com ela? Ou seja, nessa lógica, ele não estaria fazendo nada mais do que reafirmar algo posto. Será? Não é possível que defendam aquela sucessão de imagens violentas como "brincadeiras". Essa ingenuidade não cabe a alguém que sabe a força da imagem para criar desejos. O que pensam os formuladores dos comerciais? Que tipo de mulheres habita seus imaginários? Por que há essa obsessão pelos corpos femininos? Será que eles ainda pensam que as mulheres não consomem cerveja? Não se trata de negar a mulher-consumível, coisificada, pela mulher consumidora, mas de apontar os limites de uma estrutura de comercial que peca inclusive em termos mercadológicos. Tal qual o assassino que matou sua esposa acreditando que sua masculinidade está ligada necessariamente à subordinação feminina, a cada gole de mulher, o homem sente-se, como em um ritual, mais homem. Conforme ele a engole, ela desaparece de cena para surgir a imagem de um homem satisfeito, feliz; afinal, matou sua sede. É um massacre simbólico ao feminino. É uma violência que alimenta e se alimenta da violência presente no cotidiano contra as mulheres.

--- Berenice Bento é doutora em sociologia, pesquisadora associada do Departamento de Sociologia da UnB e autora do livro "A Reinvenção do Corpo: sexualidade e gênero na experiência transexual". Atualmente no Departamento de Ciências Sociais da UFRN ---

Publicado na Folha de S.Paulo, 03/01/07.


domingo, 5 de junho de 2011

Importância da Realidade Social na Sola do Sapato

Recebi reclamações de terceiros justificando a ausência de leitura no Blog Pasárgada BR: "Seu Blog só fala de Política! Lá não tem moda, tem?" Moda não é, e por mais que me esforce, nunca será minha especialidade. E bom que o senso comum às vezes é tão mal instruído que nem sabe pronunciar o título do Blog, chamam-no de Pasargada.
Bem, o dia 5 de junho de 2010 está sendo bem reflexivo para a blogueira que vós escreveis, e antes de querer me enciumar penso em usar meu talento dialógico, político, crítico em formular mais uma das minhas milhares teorias sociais, tentando trazer a realidade crítica para próximo da realidade condicionada a qual a maioria das populações se abrigam, e então falar de moda da forma que mais me sinto intima em falar: criticamente possível.
Como então a sola de sapato pode ser mais importante aos debates do que as teorias de humanos que passaram por vários desafios empíricos e estudos teóricos para serem formuladas? Simples, a mente de quem cultua sola de sapato de marca está condicionada a um livro mais simples de ser alcançado: as mídias modernas. Assim, há uma incrível acessibilidade das teorias de homens que movem as cabeças para os desejos mais materiais dos povos. O mundo se ver então numa sede incrível de consumir coisas ao invés de cultuar pensamentos científicos e críticos, nossa querida modernidade leva homens e mulheres a considerar mais importante teorias de Christian Louboutin do que as de Zygmunt Bauman, ambos dispostos na modernidade de formas bem diferentes.
Eu não sei o que é toda aquela cientificidade que aparece em "O Diabo Veste Prada", e ainda não conheço essa raça canina chamada Jimmy Choo. Orgulho-me de conhecer Bauman, Foucault, Bobbio.
Mas o que vemos ocorrer é simplesmente uma inversão de valores sociais, onde o culto ao consumo move mentalidades a buscar uma conferência com Ralph Lauren, e depois sair perguntando no sentido bem popular de quem é Howard Becker no jogo do bicho.
Enquanto a humanidade for cultuando solados vermelhos, ela vai sendo pisoteada pela sua própria ignorância capital, e deixando a oportunidade de buscar se desenvolver seu sentido crítico assim se alienando por marcas e teorias de riqueza e pobrezas formuladas por quem cultiva a vaidade e lucra com esse analfabetismo científico, e servindo cada vez mais de estudo para os cientistas críticos que usam das ideologias moderninhas e nominam os escravos dessa alienação feita pelas marcas de "Senso Comum".
Conclusivamente, a alienação é mesmo a maior felicidade dos homens.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Contra a mentalidade em conserva


Por pouco essa postagem não se chamaria, “O homem em conserva”, mas fiquei mesmo eu pensando se a pessoa em questão merecia algum título de humanidade por tamanha brutalidade que apresenta no seu discurso. Enfim, eu não gosto de perder meu tempo falando de gente que realmente não vale à pena, mas o nosso mais novo personagem das mais gritantes vergonhas que o país deve ter não está ficando quieto ao ponto de simplesmente ignorar o que ele vomita em forma de palavras. Jair Bolsonaro, diferente de outros personagens que se encontram no blog, não ganhou espaço pela sua importância na vida social e política do nosso país, mas por está interpretando o papel do palhaço político brasileiro com atitudes baixas, desrespeitosas e que agridem com a sua ignorância os avanços sociais e políticos da humanidade.
Gostar-me-ia de entender como alguém que está para o trabalho do bem comum tenta usar dos meios públicos para atacar uma lei de ordem federal. Eis que as medidas ultimamente adotadas e a força de uma lei federal agora chegam à forma de tendência. Lembro-me muito bem do medo das comunidades religiosas nas eleições passadas, o medo de se guardar os direitos da união civil homoafetiva; minha resposta era sempre a mesma: isso é uma questão de tempo! Em outros países (principalmente os desenvolvidos) essa união civil, dentro da ordem de proteção civil, já é bem valida e não exclui os valores das instituições familistas colonizadas.
Ser homossexual assumido não denigre a autenticidade sexual que “heteros” tanto temem, e muito me envergonham os personagens políticos que abrem sua boca com discursos coronelistas. Ultimamente o ex-governador do Rio Grande do Norte, Geraldo Melo (PPS), usou da rede de microblog mundialmente conhecida (Twitter) de forma equivocada para propagar suas idéias do século em que foi um profissional político governador. Entre suas infelizes declarações, Melo colocou: “Estamos ensinando as nossas crianças que é bonito ser homossexual. Será que não dava para ensinar também que não é feito ser heterossexual, ou não pode?”.
Sendo-me dada a oportunidade de resposta e defesa da classe, e principalmente defesa da evolução das políticas humanas e da liberdade, mas aqui não se trata de um manifesto popular para o incentivo de práticas homossexuais, mas estamos marchando para aquela “paz” entre os povos que as campanhas sociais tanto defendem. Entre o senso ilógico comum da sociedade sobre o caso da defesa dos direitos de casais homoafetivos, a imoralidade é bastante utilizada para defender hábitos de mentalidades construídas sobre critérios preconceituosos, e como todo não passa de um conhecimento mal estruturado. Trata muitas vezes de modo inadequado a questão da homossexualidade, como se o simples fato de se estar escancarado às condições homoafetivas fosse algo imoral e promiscuo e muitos acham mesmo que defender os direitos gays condensa “nossos filhos” a participarem de práticas homoafetivas; ledo engano. Muito me admira as inúmeras tentativas do Brasil ser um país moderno, não estou dizendo que para ser moderno tenha que ser gay, mas o nosso grande dilema social está justamente nessas tentativas de ser um país moderno nos limitando ao ditames de ordem colonial.
Pessoal que se diz moderno e é fortemente contrário ao que chamo de EVOLUÇÃO DAS POLÍTICAS HUMANAS E DA LIBERDADE é bastante contraditório quando se apóiam em mentalidades colonizadas: ideais familistas, hierarquias sociais, ditadura religiosa. Todas as instituições que formam perfis sociais, mas que fazem uma verdadeira resistência às evoluções sociais. Aqui a Igreja é grande vilã: como uma instituição que diz aceitar a todos como iguais exclui esses personagens que compõem a vida social.
Gay não é um animal que deve ser tratado sempre antes do cansativo discurso do “longe de mim”. Gay não é um criminoso que atenta contra a integridade de “moral” familiar e religiosa, arcaica, ultrapassada, quadrada, condensada e colonizada. Gay é gente e ser humano, como eu, como você que lê essa postagem, que merece que seus direitos sejam resguardados sobre ordens civis. Ser gay não é insulto para ninguém, apesar de sua imagem ser usada ainda para fins discriminatórios. É muito triste que não em pleno século XXI, já que neste ainda tenhamos sociedades primitivas e que muitos ditos modernos parecem ter nascido entre selvagens, mas que em pleno passo da modernidade social ainda tenhamos pensamentos que nos prendem as eras coloniais, que propagam a discriminação e que estejam presos aos conformismos arcaicos.
Se for para sermos enfim modernos, que nos desprendemos totalmente dessas mentalidades em conserva, esse não é um apelo para que a humanidade saia soltando a franga, mas que ela enfim faça jus ao nome que carrega: humanidade! No sentido livre das más influências que aos poucos matam as esperanças de quem quer ver finalmente a modernidade florescer, e a igualdade das relações entre os povos. Não sejamos mais escravos da ignorância!

domingo, 10 de abril de 2011

Crash

Questão do dilema social urbano


Revisando tudo aquilo que se passa aos meus olhos diariamente, pelas ruas uma mistura de cores e faces, de luzes, sons e fumaças. Tudo é marca de quem passa pela minha cidade. Mas o ponto ao qual quero atingir é mais reflexivo do que o simples fato de se encontrar misturas humanas dentro de um território delimitado.
Entre o vai e vem de pessoas, é nítido termos um foco de como tudo se encaixa num contexto de urbanização, daquilo que vai entre a concentração espacial de uma população, a partir de certos limites de dimensão e de densidade, e na difusão do sistema de valores, atitudes e comportamentos denominado "cultura urbana".
Nas vertentes do mundo urbano que se formam discussões clássicas das principais relações sociais ditas complexas: gênero e sexualidade, racismo, costumes e mitos, tudo se mistura criando nas mentes dos atores urbanos dilemas que geram entre múltiplos fenômenos: questões e dúvidas, das dúvidas os dilemas. Sei disso porque vivi ao produzir o artigo: "CIDADE ALTA - Extensão do desenvolvimento de relações sociais natalense.”
Sociedade urbana, complexa, onde se tem conhecimento da existência de várias correntes e movimentos sociais se espera que no mínimo haja uma compreensão da existência daquele corpo desconhecido, mas que seja no mínimo aceitável. Dependendo das condições impostas pelos padrões do consumismo ótico, sim, mas basta está parado e analisando um determinado ponto para que seja alvo do que é comum e necessário para a antropologia sociocultural: estranhamento. Não que se leve num sentido bizarro da palavra, mas no que consiste uma técnica indispensável para vermos o outro, aquele que divide o mesmo meio físico urbano que nós, pode muito bem ser considerado o nosso estranho, e como isso acontece com freqüência.

Crash é o retrato de uma sociedade que além de vivermos vizinhos e próximos dentro de um mesmo drama, marca uma seqüência de atos e relatos de preconceito entre os humanos que dividem de mesmo meio físico. Anda-se sempre com medo uns dos outros, às vezes abrimos nossas casas para que alguém possa fazer algo por nós, mas no fim das contas a desconfiança é sempre a voz mais forte.
Dentro desse contexto somos todos peões de um intrigado tabuleiro de emoções; afinal de contas quem nunca mudou o sentido do caminhar ou atravessou a rua como medo de uma pessoa próxima? Ou quem nunca olhou para trás pela insegurança de está sendo seguido?
Não é a premissa de achar que o ser humano desconhecido e urbano possa nos fazer mal, mas nosso medo do mal passa a ser um dilema que constitui até nossos preconceitos mais ridículos e patéticos. Não se deve simplesmente confiar na vontade de uma mão estendida por simples questão de preservação física e moral, mas tal gesto pode contribuir para que se quebrem um pouco as barreiras dos vários mundos que constituem o quadro urbano complexo.
Ser urbano é assim construído por ordem das mais diversas ordens, e sobre os limites políticos do nosso cotidiano somos todos designados aos determinismos que faz com que as faces que se misturam na cidade acabem se igualando.

“Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.”

O trecho da Declaração Universal dos Direitos Humanos tem uma ótima intenção, mas que não se aplica ao cotidiano quando elementos tentam a todo custo se sobrepor em quaisquer que sejam seus dotes: intelectuais, financeiros, força física, autoridades políticas ou ao que vemos constantemente, as forças de coerção pela violência.
Cada um com sua consciência e posição autárquica vai moldando os perfis urbanos sempre num quadro muitas vezes egocêntrico, dividindo-se em castas superiores e inferiores e que aos poucos vão moldando a face discriminatória, intolerante e exclusiva. Por mais que se façam campanhas que agreguem valores as pessoas, o velho sentimento de temer e ser superior sobrevive na realidade urbana, atentando sempre a dignidade humana.
O pensamento colonizador ainda resiste também delimitando o lugar de "pessoas e pessoas". Tão simples se ver isso quando pegamos o exemplo do elevador. O de serviço é quase sempre designado a pessoas de cor de pele mais escura, esse fenômeno só ocorre porque ainda prevalece no raciocínio social a temática que Florestan Fernandes chama de "Dilema Social". Consiste na busca da sociedade (no caso, a brasileira) em atingir a modernidade e aos avanços sociais, mas sem deixar para trás o pensamento demais enraizado, tradicional e conservador pregado no nosso período colonial. Instituído o elevador de serviço de tal forma que ainda não saiu do imaginário do nosso digníssimo país que há pessoas que sempre comporão o quadro dos eternos serviçais ou subalternos (caso dos nossos escravos).

Dentro do terreno urbano estamos todos laçados pelas prerrogativas e banalizações. Sem que as pessoas se dêem conta do contexto que estão envolvidas, vão se cruzando entre mentes diversas, comportamentos e costumes, tolerando ou não quem esbarra por nós ou simplesmente por indiferença negando a existência de pessoas como humanos e buscando sempre a sobreposição do ego. Somos sempre atores que compõem as faces éticas da selva de pedra, e moldando assim suas características mais críticas.


"Ninguém te toca. Estamos sempre atrás do metal e do vidro. Acho que sentimos tanta falta desse toque, que batemos uns nos outros só para sentir alguma coisa. "


Referências
CASTELLS, Manuel. A Questão Urbana. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
Declaração Universal dos Direitos Humanos. ONU, 1949.

domingo, 27 de março de 2011

Ricoeur


"Deste conceito insuperável de fusão de horizontes, a teoria do preconceito recebe sua característica mais própria: o preconceito é o horizonte do presente, é a finitude do próximo em sua abertura para o distante. Desta relação entre o eu e o outro, o conceito de preconceito recebe seu último toque dialético: é na medida em que eu me transporto no outro, que levo meu horizonte presente, com meus preconceitos. É somente nesta tensão entre o outro e eu mesmo, entre o texto do passado e o ponto de vista do leitor que o preconceito se torna operante, constitutivo da historicidade."

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Bonesmaniaca II


"Conjuntos de crenças organizadas as quais não se adaptam às mudanças de costumes, são rebaixadas de religião para conjuntos de mitos reconhecidos metaforicamente. Ninguém mais cultua Odin ou Zeus."
-Drª Temperance Brennan (Antropóloga Forense) sobre as posições imóveis da Igreja Católica.
(Bones - FOX)
P.s.: Isso pode muito bem acontecer com Deus.
=)

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Duas Igrejas incomodam muito mais

Antes de qualquer membro da Igreja fazer suas pregações e determinações sobre moralidade seria melhor olhar para si mesmo e ver se não errou em nada durante se percurso de vida.
Mas uma vez o pensamento super-religioso vem dando exemplo de regressão da mentalidade humana. Já foi com o processo eleitoral quando a Igreja Católica se meteu demais em assuntos que não eram vaticanizados, e agora a Presbiteriana vem infectar a academia. O caso é que em São Paulo, a Universidade Presbiteriana Mackenzie vem sofrendo com esse tipo de manifestação num sentido mais homossexual dos fatos. Hoje (24), ao som de Cazuza, estudantes de uma das mais renomadas universidades brasileiras e membros do movimento LGBT decidiram não ficarem calados quando o assunto é "discurso das autoridades sobre a evolução humana.”
Contrários ao posicionamento da instituição, pediram a demissão do chanceler da universidade, Augustus Nicodemus, por ter reagido pelo "Manifesto Presbiteriano sobre a Lei da Homofobia", texto que é contra a aprovação do PL 122, que criminaliza a homofobia no Brasil recomendando a comunidade acadêmica a pensar a homossexualidade por aquilo que pensa a Igreja Presbiteriana.
No meio desse clima fica até a duvida de até onde somos uma sociedade moderna, que não precisa ser necessariamente aderente aos movimentos, mas que deveria ser no mínimo tolerante com as diferenças. Esses cristãos que se guiam pelos moralismos que a Bíblia desenha simplesmente se viram contra os valores que ocorrem num sentido mais apaziguador do mundo.
Sinceramente, viver sobre os ditames das leis divinas é num entender mais lógico, viver sobre uma mitologia que alguns seres humanos fizeram para manipular o pensamento social. Isso acaba levando a humanidade a evolução nenhuma, dando a sensação de se estar estagnado sobre as leis da inquisição; e isso é ainda mais absurdo quando se lança as propostas medievais de qualquer pensamento religioso para o meio propriamente acadêmico, onde a ciência é quem possui o maior domínio.
Num sentido mais humanamente livre, só consigo compreender o quanto o pensamento preconceituoso das Igrejas (que condenam as atividades gays) por um discurso "moral" nos transgride a não sairmos dos limites do colonialismo, ficando nesse ponto histórico para baixo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pregação de Pacifismo Eleitoral

Ano de 2010, no Brasil passamos por mais um processo democrático das eleições presidenciáveis. Para se fazer valer, candidatos a profissionais políticos fazem uma verdadeira corrida demagógica a fim de alcançar seus objetivos nas políticas nacionais. Como bem se sabe, a prática política é constituída de diferentes correntes de pensamentos e de objetivos também divergentes. Mas as propagandas muito se assemelham nos discursos, o que não fica claro são as posições.

Dentro dessa lógica, vemos que o conflito é um mecanismo estruturante da vida social além dos fatores históricos. O Estado de Thomas Hobbes só foi efetivado a partir do estado de guerra e dos conflitos que então preexistia ao contratualismo social e a construção do Estado. Engels faz então uma análise sociológica do conflito com base em dados empíricos, assim essas relações que envolvem os interesses entre os humanos só são passiveis de se constituírem sociologicamente por antes ter-se o registro das divergências humanas todas assentadas em interesses.

Nos bastidores do processo eleitoral brasileiro, os interesses entre as correntes políticas em competição dão condições para a dimensão do conflito. Mas, vez ou outra, aparecem aqueles que se lançam pregando um pacifismo eleitoral. Na condição de neutralidade, candidatos fazem campanhas visando um “bem-comum” como discurso, e dando vez a todos os eleitores, principalmente no que diz respeito à condição econômica que atualmente engloba o capitalismo monopolista e a classe trabalhadora. Mesmo que esse pacifismo unitário nacional não se enquadre em seus princípios partidários morais.

Assim, assistimos nos processos eleitorais um reflexo de idéias onde os interesses econômicos predominam na tentativa de controlar os meios de produção mental para um partido ou para outro. E onde os controles dos meios materiais produzem tais idéias, são refletidos nas ideologias políticas dos interesses idealizados e sempre camuflados entre os rivais candidatos pelo pacifismo eleitoral.

Dentro de demais campanhas há sempre os que se identificam de uma posição ou outra convicção. A luta econômica e política só se efetiva por divergência entre classes sociais, e mesmo que façam uma demagogia útil a todos, há sempre os que se identificam mais por uma ordem ou ideais, fazendo com que os candidatos a profissionais políticos também sejam mais definidos por uma ou outra classe.

Assim, os conflitos políticos sempre estarão fundados na democracia favorável a interesses. E isso muitas vezes coloca não só candidatos políticos em combate, mas também os ideais de quem os elege. Daí o eleitor da política republicana assume a postura de escolher e/ou optar por quem deverá eleger, os colocando em uma representação conflituosa de defesa e oposição daqueles que divergem de seus ideais políticos e dos interesses sociais em questão.